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O livro que escrevi para Carol


13.09.2023


Hoje, Carol postou um texto no Instagram falando sobre Para onde atrai o azul, que lancei há um ano. Chorei, estou comovida desde então, e não consigo fazer mais do que compartilhar o que ela escreveu. Eu amei, achei lindo e espero que vocês gostem também.



Texto lindíssimo da Carol:


Há quase uma década, fui diagnosticada com uma grave doença auto-imune. O médico, respondendo à minha incredulidade, afirmou rispidamente que eu era “caso de livro-texto” e ordenou que eu colocasse minhas mãos sobre a mesa: “Tá vendo esses dedos tortos? Essas juntas assim? (pegou a mão estendida) Isso é, claramente, manifestação reumática!”. Eu não tenho os dedos tortos, eu não vi.

Mas, antes mesmo dele engrossar a voz, seus lugares de ‘autoridade’ – homem, mais velho, médico – já pesavam sobre minha capacidade de falar, de questionar, mais que a doença (até então sem nome) e o medo dela: bolhas pelo corpo, bolhas nos olhos, ficar cega, não poder ler. Não discordei, aquiesci. Foram meses com o peso daquelas palavras, “Síndrome de Behçet”; até que outro médico (outro homem, mais velho que o primeiro) as tirou de cima de mim.

Escrever sobre um livro tão precioso como “Para onde atrai o azul” não é difícil, poderia escrever e escrever e escrever, até escrever outro livro que, ainda assim, não seria suficiente, não diria tudo. Jessica Cardin, por outro lado, não escreve, ela compõe. Sua prosa é musical para além da fonética das sílabas e palavras; há uma pulsação musical na ideia, que se transforma em sentimento; há um ritmo nas profundidades, “algumas ondas surgem de tremores ocorridos nas profundezas, meu bem”, ondas que arrebentam, pesadas e incansáveis, sobre nós leitoras, com suas “iras e vindas”; há uma dor silenciosa, que parece calar, até mesmo, o marulho dessas ondas, só parece. Cardin escreveu o impossível: os longos silêncios que preenchem as músicas tristes; os acordes alegres e borbulhantes que, enganosamente, pascentam as ondas seguintes, mais fortes, mais terríveis, mais belas, ondas que arrebatam, envolvem e você se afoga na familiaridade dos acordes mais tristes.

Agora, talvez, eu conte do livro e não de como ele me fez sentir. Desvio porque tenho receio de contar mais do que eu mesma gostaria de ter lido, antes de ler.

Conheci a Jessica numa festa, o relançamento (pois o primeiro havia sido pandêmico e digital) do livro de contos “Você não vai dizer nada”, da Julia Codo, o último livro que me arrebatou desse tanto (Natalia Ginzburg, Sylvia Plath, Clarice Lispector e Louise Glück não contam, são eternas, eu é que sou sempre atrasada e leio agora o que escreveram há tanto tempo).

O livro da Jessica estava para sair; ela, maravilhosa, absolutamente modesta sobre ele, não fez outra propaganda que não uma alegria imensa nos olhos, ao falar brevemente dele. Então, quando a mulher deslumbrante da festa tinha já se tornado, para mim, uma personagem incrível dessas redes, o livro saiu. Resenhas, comentários, entrevistas, trechos: o livro era sobre relacionamento abusivo. Bastaram alguns trechos de divulgação para me incomodar, “eu não quis eu não quis eu não quis”, não comprei o livro. Até que veio a feira do livro, e comprei. Comecei logo, mas devagar, aos poucos, à medida que me envolvia com a leitura, me sentia sufocar. Parei. Na segunda tentativa, do começo; tentei ser rápida, não consegui; comecei a perceber os detalhes, o ritmo profundo e irresistível do livro – muito abaixo da superfície de palavras e frases belíssimas –, a água puxando no fundo; fui um pouco mais longe, mas desisti outra vez.

As tentativas de falar do livro sem falar de mim são tão inúteis quanto as de ler sem me deixar levar.

Quando eu entro no mar, eu sempre sinto como se lavasse a alma. Eu não acredito em alma, mas eu sinto, quando entro no mar. Há três dias, segunda à tarde, eu entendi o que sinto quando entro no mar, há 57 quilômetros da água salgada, no azul do meu sofá, eu entendi que, quando eu entro no mar, eu lembro do colo da minha mãe. E depois de largar toda (talvez não toda, afinal) a água salgada, que me afogava, no colo da minha mãe, eu senti que era hora de uma nova tentativa. Segunda-feira é meu rodízio, levei minha mãe e o livro para o aeroporto e esperei as horas do retorno, lendo.

O livro tem duas partes, a primeira é como uma infância, delicada e marcante. Eu li três vezes essa parte. A primeira, tentando entender; a segunda, me recusando a entender; e a terceira, lembrando que eu já sabia o que estava ali, era só deixar fluir, aquela imensidão de beleza terrível. Na segunda parte, página depois de página, onda depois outra onda, em cada uma delas, eu me encontrava, o livro me repetia “as feridas invariavelmente se repetem”, mas, dessa vez, eu tive fôlego para passar a rebentação.

No fim, o médico estava um pouco certo, eu era um “caso de livro-texto”, só que o livro ainda não tinha sido escrito, era um livro impossível e a Jessica o escreveu.



Carolina Borges

Doutoranda em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), desde o mestrado pesquisa as relações entre história e ficção.

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