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O parque das pintoras magníficas

Atualizado: 17 de mar. de 2023

Estou apaixonada por cinco mulheres


Talvez eu tenha me cansado muitíssimo de observar Rembrandt, Rafael e Caravaggio, esse realismo sufocante, tudo tão completamente dito, a linha perfeita, luz e sombra delineadas, limites tão perfeitos de imagens quase fotográficas. As cinco mulheres que me espantam o fazem porque me contam sentimentos com palavras que nem conheço, imaginação que transcende. Química. Mais do que a explicação, me interesso pelo que convida à dúvida, as coisas sensuais.


BEATE WASSERMANN

Beate Wassermann é meu mais novo assombro, o que é muito, já que ando apática em meus sentidos, mas a arte é inescapável e a força de Beate me atingiu como uma flecha, algo de cupido. Esse adoçamento ressoa com atravessamentos anteriores causados por outras mulheres igualmente magníficas.


1. Rosalba (2001), 2. Constellation IV (1996) e 3. Madonna from Altona (1979), autorretrato da artista grávida. Beate Wassermann.


Nascida no pós segunda guerra, Beate foi uma pintora alemã com trabalhos frequentemente em grandes formatos, onde as medidas de seu corpo imprimem formas nas pinturas. Seu trabalho explora temas como o papel da artista, o ser humano, mulher e mãe. Sobre a última condição, fiquei tomada por um de seus raros autorretratos: a Madonna de Altona (Altona é uma cidade na Alemanha onde ela morou por longos períodos). A figura de uma mulher grávida, cercada por luz, com pinceladas fazendo-se cabelos como uma coroa de espinhos e proporções que remetem às próprias proporções da artista, ao seu corpo real. Revelar mais do que um gesto, a força ou a suavidade da pincelada, mas toda sua corporalidade é expandir a impressão digital a uma singularidade total.


1. Sem título #134, 2020. 2. Overdrive, 2019.

3. Sem título #96, 2019. 4. Estudo para lembrar de você, 2021. Julia Pereira


JULIA PEREIRA

As cores de Julia são uma explosão. Nenhuma pintura é calma, todas me parecem terremotos sob a pele, lava colorida que escapa em forma de tinta e insinua. Insinua sem dizer, sensualidade pura, algo de Cupido. Acho que foi ela que trouxe certa intimidade com esse tipo de arte, acessando um mundo que está em paredes, mas também em nosso interior. Isso porque conheci a Julia durante a pós-graduação em História da Arte, temos a mesma idade, uma mulher de mãos pequenas como as minhas, serena por fora, ainda que nos aproximemos da borda, vulcão prestes a entrar em erupção.

Agonia do Eros

Byung Chul Han é um filósofo que venho lendo, não apenas porque seu livrinhos pequenos e finos não assustem, é verdade, mas também porque suas ideias são claras, atuais e apresentam uma visão sólida de um mundo que se desmancha no ar. Numa noite qualquer, depois de chegar do trabalho, uma ideia gruda na lembrança, uma ideia enevoada, pego o pequeno exemplar como se fossem lentes de grau, me fazem enxergar melhor, o pensamento tornado nítido. Volto e volto para uma frase solta e ela comunica com tanto que vejo na vida.


"Apenas o outro nos salva de nós mesmos."

O sujeito depressivo-narcisista está esgotado e fatigado de si mesmo. Eros e depressão se contrapõem mutuamente. O eros arranca o sujeito de si mesmo e direciona-o para o outro. A depressão, ao contrário, mergulha em si mesma. (p. 7)

Estas cinco pintoras que trago no coração me deslocam de mim; não me reconheço nelas: elas me apresentam ou criam em mim um lugar novo para além do que a expectativa poderia supor. Ao contrário do que Hilda Hilst diz "Tu não te moves de ti", por me tirarem e me moverem de mim, são trem que me levam a visitar novas construções interiores, nascidas talvez, sim, já como ruínas, mas ruínas magníficas.


HILMA AF KLINT

A infância (gostamos de pensar) é um período de flores. Durante sua "infância artística", Hilma Af Klint pintava paisagens comuns, elementos reais de um mundo à vista. O tempo, felizmente, passou. Hilma Af Klint pintou tanto tanto, pensou tanto. Não o tipo de pensamento linear, transparente e coeso, mas um que fosse profuso, instintivo, quase espiritual, ainda que suas formas sejam algo matemáticas, geométricas. Trabalhou intensa e rigorosamente. Deixou mais de 1.200 pinturas, 124 cadernos de notas e desenhos em mais de 26.000 páginas.

Childhood (Infância), nº 2 (1907). Hilma Af Klint.


Hilma é capaz de dizer sem idioma, pintar o que não é visível. O que não é óbivo às vezes parece não fazer sentido, como o pôster da obra "Idade Adulta" ou Adulthood. Mais do que linhas agradáveis, a sueca Hilma Af Klint traz um mistério para a minha parede, me faz sempre uma nova pergunta, olho outro traço, sou abraçada pelo que me parecem braços pretos, com um fruto no centro. Diferente da infância, em que não há escolha, a idade adulta traz o poder da decisão. Mordo o fruto.


Adulthood (Idade Adulta) nº 7 (1907). Hilma Af Klint.


Dos contos de fadas conhecemos a Fera. Há homens que se recusam à razão cartesiana dos tempos do iluminismo, essa razão científica que produziu vacinas, mas também as bombas atômicas. Há pintores masculinos que também falam a verdade por meio de delírios: os traços tortos de Egon Schiele, o Saturno de Goya, o jardim da delícias fantásticas de Bosch... o tipo de artista que eu poderia amar.

Amar mais o monstro do que o homem, mais a fera do que o príncipe.


TRACEY EMIN

O que há de sutil nas imagens reveladas por Tracey Emin é sempre misturado ao grotesco. Linhas frágeis de um corpo feminino culminam em sangue, um aborto, contando-nos suas dores através de quadros. Essa mulher faz o que é mais difícil: nos lembrar o que já vivemos de mais terrível e alguma maneira de continuar. Ao procurar algo sobre a artista na internet, menções aos seus trabalhos usam o termo "confessional". Acho interessante essa ideia de que, ao contar nossas próprias histórias através da arte, o trabalho seja considerado CONFESSIONAL, como se a vida fosse um grande pecado a ser confessado.

Pecados ou não, os relatos de Tracey Emin são urgentes de se ouvir, como se estivéssemos, feito um padre, a ouvir com muita atenção.


1. Sometimes There is No Reason, 2018.

2. It was all too Much, 2018.

3. You Kept watching me, 2018. Tracey Emin


DJANIRA DA MOTTA E SILVA

O quadro querido abaixo está na exposição permanente do MASP. De Djanira, não importa dizer quem foi seu professor: o mérito é seu. Li exaustivamente na crítica que sua obra foi considerada por muitos como "ingênua" ou "primitiva". Ora, não é de estranhar que os olhos que procuram a realidade ou Tradição fabriquem uma categoria diversa para o que não é fotografia. Djanira oferece um buquê de anjos / flores e, sobretudo, encantamento.


A vendedora de flores, 1947. Djanira.


Pelo menos do meu ponto de vista, a tela aceita melhor a febre do que a saúde. Essas pintoras que pintam com fogo aquecem meu sangue. Avivam minha vida.


As cinco pintoras magníficas são Beate Wassermann (alemã), Hilma Af Klint (sueca), Julia Pereira (brasileira) Tracey Emin (inglesa) e Djanira (também brasileira).

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