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Por que Lana del Rey ainda não se matou

Atualizado: 10 de fev. de 2023

"Posso nunca vir a ser feliz, mas hoje estou contente."



Lana Del Rey anunciou novo álbum para março de 2023. A artista continua em atividade e desenvolvendo trabalhos cada vez mais sólidos dentro de um gênero que não se destaca por profundidade emocional necessariamente. 'Did you know there's a tunnel under ocean blvd' remete à profundidade dentro da profundeza: um tunel / caminho / por baixo do oceano. Este será o sucessor de Blue Bannisters, obra a ser analisada a seguir.

A inspiração de Lana Del Rey em Sylvia Plath é declarada. Em Hope is a dangerous thing for a woman like me to have, ela canta:


24 horas, 7 dias por semana, Sylvia Plath / Não me pergunte se estou feliz, você sabe que não estou / Na melhor das hipóteses, posso dizer Não estou triste


Relativamente pouco conhecida no Brasil - mas cada vez mais -, Sylvia Plath foi uma poeta e escritora estadunidense em produção nas décadas de 50 e 60. Apesar da qualidade de seu trabalho, sobretudo na poesia, a forma de sua morte é, muitas vezes, o motivo de sua notoriedade. Ainda que o mesmo não ocorra com outros artistas que escolheram partir de modo igual, como o também escritor Hemingway, que se matou apenas dois anos antes de Plath. Nos EUA, leitores ainda adolescentes têm contato com sua obra, o que a torna amplamente querida.

Sylvia Plath chegou a ser internada numa instituição psiquiátrica em mais de uma ocasião. Como sua doença era crônica e as crises eram ativadas por acontecimentos desastrosos em sua vida pessoal, num momento de piora, porém, o evitável aconteceu. Como é sabido, o custo dos tratamentos médicos nos Estados Unidos é exorbitante; o país não possui um sistema de saúde pública. A escritora, então com 30 anos em 1963, chegou à conclusão de que os tratamentos necessários para sua recuperação levariam sua família à falência.

Muitos anos antes, em seus diários, Sylvia escreveu: "Julho de 1950 - Posso nunca vir a ser feliz, mas hoje estou contente." Compartilhando da mesma estética da melancolia, Sylvia e Lana tratam dos problemas com o pai, a ausência sentida por toda a vida, que se reflete em seus relacionamentos amorosos.


Sylvia Plath no poema “Daddy” (Papai)


Toda mulher adora um fascista, A bota na cara, o bruto

(...) Se eu matei um homem, eu matei dois / O vampiro que disse que era você / E bebeu meu sangue por um ano, / Sete anos, se você quer saber)


Em Text Book, faixa de abertura de seu último álbum, Blue Banisters, cujas letras, segundo Lana Del Rey, são as mais pessoais e a história dela, ela diz:


Eu estava procurando pelo pai que eu queria de volta / E eu achei que encontrei isso em Brentwood

(…) Você tem um carro Thunderbird / Meu pai tinha um também / Vamos reescrever a história / Eu vou dançar essa com você


Em Daddy, de Sylvia, matar um homem pode significar simbolicamente matar o marido, o homem que “bebeu seu sangue por sete anos” e que disse que era “você”, ou seja, o Papai do título do poema. Já Lana confessa que estava procurando o pai que ela queria de volta e pretende reescrever a história, que fracassou com o pai, com este novo homem.

De volta à Hope is a dangerous thing for a woman like me to have, ou Esperança é uma coisa perigosa para uma mulher como eu ter, este sentimento de se sentir bem - ou melhor: não se sentir triste -, mesmo que por um dia, traz a experiência conhecida por pessoas que convivem com a depressão ou outros transtornos semelhantes. A frustração que vem em pensar que vai melhorar para, então, cair em um novo abismo adiante.

Em um tempo em que o sofrimento psíquico e as doenças mentais eram pouco entendidas, as ferramentas para lidar com estas questões eram escassas.


Cantora de sua geração, Amy Winehouse trazia a mesma profundidade de tristeza, e expressão visceral de sentimentos através de sua arte, mas de um modo autodestrutivo. Lana e Amy possuem apenas dois anos de diferença. Lana estourou com o álbum Born to Die um ano após Amy morrer em decorrência do uso de drogas.


Lana também passou por alcoolismo, relação difícil com a mãe, um certo apaixonamento pelo pai. Em Wildflower Wildfire:


Meu pai nunca interveio quando a esposa dele ficava com raiva de mim / Então acabei estranha, mas doce


Em Rehab, Amy relata seu encontro com um médico que lhe diz “Eu acho que você está depressiva” e ela responde “Eu e todo mundo.”, fazendo piada com o fato de não se submeter ao tratamento que poderia ter salvado sua vida. Ao contrário da inglesa que negava-se ir à reabilitação para seu vício em álcool e outras drogas, Lana procurou ajuda médica.

Dados da Associação Brasileira de Psiquiatria estimam que 96% dos casos de suicídio estão relacionados a transtornos mentais. A depressão é a doença mais associada, mas transtornos de humor, como o transtorno bipolar, podem levar ao mesmo destino se não tratadas corretamente. Com o avanço da farmacologia***, muitas vidas hoje podem ser salvas.

Mais do que negar sua condição, muitos artistas assumem suas condições atípicas e se reconstroem a partir da arte. A arte passa a ser uma tábua de salvação, um processo terapêutico, a expressão do sofrimento enquanto alívio do mesmo.

Wildflower Wildfire traz Lana falando sobre a importância do lítio (medicamento para transtorno bipolar) para possibilitar sua criação:


E tempos depois, hospitais, me mantinha de pé / Confortavelmente entorpecida, mas com o lítio veio a poesia


Em Beautiful:


E se alguém tivesse pedido pro Picasso não ser triste? / Nunca saberíamos quem ele foi ou o homem que ele se tornaria / Não haveria o Período Azul


Se, por um lado, acolher a melancolia, como Picasso fez, pode ser poderoso artisticamente; por outro, uma dor desmedida que leva a vida ao fim interrompe a criação. Dizem de Van Gogh que não seria um grande gênio sem seus tormentos. Hoje, já sabemos que, ao contrário, em sofrimento extremo ninguém é capaz de produzir o que seja. Nos intervalos entre uma crise e outra, ele conseguiu pintar imagens que persistem na memória afetiva de milhões, imagine o que poderia ter feito se estivesse bem.

Elizabeth Grant, nome real de Lana Del Rey, tem problemas semelhantes aos de outros artistas que acabaram tirando suas vidas em momentos de crise extrema. Com um histórico de alcoolismo na adolescência, transtorno mental e tão profundamente conhecida por suas letras confessionais em que exprime sofrimentos diversos, chegando a ficar conhecida como Sad Girl, seria de se prever um destino parecido com suas musas inspiradoras e colegas de cena musical. Mas Lana faz o caminho contrário. Em vez de romantizar o sofrimento, ela encontra alternativa dentro da arte.

60 anos após Sylvia Plath ligar o gás de seu fogão e colocar a cabeça dentro do forno, sua poesia permanece irradiando potência.


Lana Del Rey, ainda em Beautiful, mostra sua forma de viver e criar:


(...) Me deixe te mostrar como a tristeza pode virar felicidade / Eu posso transformar a tristeza em algo / Belo, belo


Apesar dos pesares, a cantora reafirma a vida e a capacidade de elaborar, ou seja, transformar a matéria bruta da tristeza em beleza em forma de poesia, de música. Melancolia como decisão consciente. Melancolia como construção de um universo estético.


Em 2020, seguindo os passos de sua musa, Del Rey lançou seu primeiro livro, Violet Bent Backwards Over the Grass, com 13 poemas longos e vários outros menores.

A arte (e tratamento psiquiátrico adequado) salva.


Notas de rodapé

Este texto não pretende, de forma alguma:

*Defender o uso indiscriminado de drogas farmacológicas a fim de anestesiar realidades insuportáveis.

**Negar os fatores sociais que envolvem o desenvolvimento de transtornos mentais, minimizando o papel da sociedade capitalista e como seus valores impactam na saúde física e mental dos indivíduos. A química, sabidamente, não é e não deve ser a única forma de tratar sofrimentos psicológicos.



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